Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilhas,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente
cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos,
não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;
se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço
no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vida pela frente.
Mas vejam, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo...
Jorge Luiz Borges
Jorge Luiz Borges foi um poeta argentino. Um grande homem das idéias. Redigiu esse texto alguns dias antes de morrer. Não necessito tecer muitos comentários, pois quem lê pela primeira vez já entende a profundidade dessas palavras.
A minha infância foi a melhor época da minha vida. Eu sabia contar o tempo somente através do meu aniversário, do Natal e do Dia das Crianças. Passava praticamente o dia todo assistindo a Rede Manchete, acordava vendo o "emezinho" girar e entrar nas casas. O que será que aconteceu com a Rede Manchete? Essa foi a primeira emissora que nos apresentou ao mundo das séries japonesas, dos mangás e animes...Jiraya, Jiban, Jaspion, Changeman, Flashman, Machine Man, CiberCops (alguém lembra da Patrine????), Cavaleiros do Zodíaco. Vivia em frente da TV e quando começava, aumentava o volume pra cantar as trilhas de abertura.
Se não estava assistindo alguma série japonesa, estava curtindo os desenhos do SBT: Os ThunderCats, Kissyfur, Nossa Turma ( get along gang, get along gang...!), era o maior barato. Tudo isso fica na nossa cabeça, podem passar 15, 20 anos, mas sempre lembraremos do que nos tocou na infância, dos sabores, das sensações, das brincadeiras, das interpretações e das múltiplas personalidades. Eu interpetava um monte de personagens que saíam de não sei onde: a Ágata era um moça de outra galáxia que atravessava paredes, a Patricia e sua filha Patricinha...Gente, da onde se tira isso? Era-se tudo e todos... A criança não tem medo de nada, nem vergonha, ela é, simplesmente. Ah, como fui feliz: Pulei, brinquei, caí, chorei de dor, de injeções; eu era a professora, a médica, a fotógrafa, a atriz.
Agora somos medrosos, pensamos, refletimos, não vamos, não ficamos, criamos problemas e poucas soluções.
-Sim. O Lúcio disse que eu era doido e comprou o livro do Osho pra eu ler. Você não imagina, o cara é igual a mim! Como está lá na empresa?
-Eu saí. Não estava tendo tempo para a monografia.
-Ah, sei. Você parece comigo... E os namorados?
-Que namorados?
-Ah, eu fico com medo desses caras...
- A vida é um risco. Não sabemos o que vamos encontrar pela frente. Gostaria de ser frio como você. Duro e frio.
-Ah, mas você aprende.
-Assim espero...
-Leia a página 222 do Ulisses. A gente tem que ler e entender o que esses caras falam. -Todos eles: o Jorge Amado, o James Joyce, o Osho... Todos dizem o que queremos ouvir, de certo modo.
-Espero que você use o que lê, que faça bom proveito das palavras.
-O Lucio vai me ligar. Se ele me ligar, eu retorno pra você.